domingo, 21 de novembro de 2010

Lugares estranhos e quietos


Wim Wenders gosta de viajar. A possibilidade de conhecer novos lugares e os simples ato de ler nomes de vilarejos, de cidades ou de acidentes geográficos no mapa já o deixa muito animado. Ele gosta de lugares, enfim – é o que deixa claro no texto de abertura da exposição de fotografias Lugares, estranhos e quietos, em exibição no Masp.

Mas, em seu método próprio de explorar o mundo, ele não segue a lógica da maioria. Enquanto, em uma esquina qualquer, as pessoas comuns escolhem virar à direita porque lá vão encontrar coisas interessantes, Wim Wenders vira à esquerda justamente porque lá não tem nada.

É assim que ele fotografa lugares esquecidos e desolados, ignorados por quase todos. Ele nos apresenta um playground na areia, onde um coqueiro de concreto se ergue ao lado de um brinquedo de balanço em um dia nublado. Uma parede com uma pia. Uma roda gigante enferrujada que entrou em desuso. Turbinas industriais – quem sabe para que servem – no alto de um prédio.

Como eu fiquei feliz de ver essas imagens, apesar da melancolia que elas inspiram. Feliz de saber que alguém olha o mundo de um jeito menos óbvio. Sem lindas paisagens e pontos turísticos. Sem grandes sacadas e tentativas de capturar o instante decisivo à la Cartier-Bresson.

Vamos encarar os fatos: ninguém vai chegar lá, por mais que se tente e se fique por horas fotografando menininhos brincando de peão em um chão de terra, ou seja lá qual for a “cena da vida” escolhida pelo fotógrafo. Nestes dias de imagens banalizadas, eu conclamo: peguem suas câmeras semi-profissionais e apontem para algum lugar que valha a pena. É de lugares estranhos e quietos que o mundo é feito.

domingo, 10 de maio de 2009

Histórias fantásticas




Se tivesse que descrever Adolfo Bioy Casares em uma frase, diria que ele é o autor de frases que gostaríamos de ter dito antes.

Foi em pouco tempo que comecei e terminei de ler o livro Histórias Fantásticas, de Adolfo Bioy Casares, escritor argentino contemporâneo de Jorge Luis Borges. Como o título bem sugere, seu autor se insere no contexto do realismo fantástico, movimento literário latino-americano que se desenvolveu ao longo do século XX. Gabriel Garcia Márquez, talvez o principal expoente desse movimento, é um dos meus escritores preferidos.

Na literatura, tudo aquilo que é fantástico, misterioso, digno de espanto e curiosidade exerce sobre mim uma atração irresistível. Quando a Cia das Letras publicou os Contos fantásticos do século XIX escolhidos por Ítalo Calvino, logo quis comprar o livro, que acabei ganhando em seguida. Ele reúne autores como Walter Scott, Balzac, Gogol, Edgar Allan Poe, Charles Dickens e Turguêniev.

Enquanto o fantástico retratado nas obras do século XIX é povoado de demônios, feras, fadas, gênios, mortos que voltam à vida e seres de outro mundo, o fantástico do século XX enfatiza as nuances mágicas e surreais de nosso próprio cotidiano.

As histórias de Casares refletem o fato de que a vida – mesmo a “vida real” – às vezes não faz o menor sentido. Sendo assim, para que se preocupar com as regras limitadoras da lógica e da verossimilhança? E é em meio a essa atmosfera impossível que Casares consegue revelar as verdades mais cruas sobre a natureza humana.

Um recurso que aparece em alguns contos é o narrador contar uma história que ele ouviu de outro personagem ou mesmo reproduzir o que esse segundo personagem escreveu. Talvez seja uma maneira de haver um comprometimento ainda menor com a realidade.

Folheando o livro, que terminei de ler já faz alguns meses, percebo que as histórias gravaram imagens tão nítidas em minha memória que é como se eu tivesse sonhado com cada uma delas: um avião que transporta o piloto de testes para uma realidade paralela onde não teriam existido os galeses; um fazendeiro que consegue fazer o tempo estacionar para evitar a morte da filha; um poeta que se apaixona por uma jovem cujo marido tem a peculiar estatutura de meio palmo; o começo do fim do mundo anunciado pelo apodrecimento do mar...

terça-feira, 10 de março de 2009

Em NYC


Há mais ou menos um ano, eu estava em Nova York. Uma amiga tinha me dito que não sabia o que eu via de tão especial na cidade. De acordo com ela, a principal coisa a se fazer na cidade eram compras. Ela nunca esteve em NY. Estive me lembrando dessa viagem recentemente, quando precisei dar algumas dicas de turismo. Muito do que sei, devo ao Lonely Planet, mas aprendi algumas coisinhas por conta própria. Aí vão algumas dessas dicas:

NYC Must-Do's


- MoMA: Nem preciso dizer que, estando em NY, você tem que ir lá. Quando eu fui, tinha uma exposição maluca sobre tecnologia aplicada à arte. Nunca vi nada igual. O prédio também é muito interessante e passou recentemente por uma reforma. Fica a poucas quadras da Quinta Avenida. Por fora, não é tão imponente quanto o Metropolitan, então demorei um pouco até encontrá-lo!

- Metropolitan: Quer uma dica? Não seja prepotente o suficiente para achar que pode ver tudo o que tem lá dentro. Tinham me falado que era muito grande, mas quando vi no mapa que o museu só tinha um andar, achei que pudesse percorrê-lo inteiro. Ledo engado! No final do dia, estava tão cansada, que não consegui fazer mais nada além de comprar um pretzel e sentar num banco do Central Park por irresponsáveis 40 minutos (naquela temperatura!). O legal desse museu é que as obras estão expostas de maneira cronológica – primeiro a arte egípcia, depois a grega, romana, civilizações pré-colombianas, tribos africanas, etc etc etc. Priorize as exposições novas em detrimento do acervo permanente, que é gigante. Quando eu fui lá, vi a exposição do Courbet.
Ah,tem uma outra coisa sobre o Metropolitan. Por lei, o valor do ingresso lá não pode ser obrigatório. Ou seja, você pode entrar sem pagar nada. Mas eles colocam um valor sugerido. Quando eu fui, fiquei constrangida de dar menos dinheiro, ou não dar nada, então paguei aquele valor, mas fiquei me sentindo meio idiota depois.

- Museu de História Natural: Para falar a verdade, não foi dos melhores passeios. Talvez eu estivesse um pouco cansada demais quando fui lá, mas não vi tanta coisa que me impressionou. Mas acho que tem que ir, nem que seja pra dar uma passadinha. Fica mais ou menos perto do Met. Você só tem que atravessar o Central Park (na largura e não no comprimento!).

- Guggenheim: Vale ir, nem que seja só pelo prédio. É um museu em espiral. É uma bela caminhada pra chegar até lá se você partir do extremo sul do Central Park, mas dá para ver uma região residencial bem chique de Nova York no caminho. Lembro que tive que perguntar para várias pessoas onde ficava esse museu. Não sei se ele não consta no guia ou se eu simplesmente não consegui encontrar essa informação. Ah, a fachada do museu está em reforma desde quando eu fui. =(

- Visita guiada à ONU: Os guias são pessoas que realmente têm um cargo na ONU, portanto são muito bem esclarecidos e falam com conhecimento de causa sobre os projetos e o modo como se organizam as Nações Unidas. Lá você vai conhecer as salas famosas onde acontecem as reuniões da ONU. O prédio é bem bonito e lá dentro você vai também encontra obras de arte interessantes, “presentes” recebidos de vários lugares do mundo.

- Landmark Sunshine Cinema: é um cinema de filmes alternativos no coração do lower east side de Manhattan. Fui lá duas vezes, era bem perto do meu albergue. Lá você vai encontrar nova-iorquinos de verdade, dá para fugir dos turistas durante umas duas horas. Li uma
crítica dizendo que ultimamente ele tem feito mais concessões a filmes comerciais, mas não perdeu a característica original.
Aqui está o endereço no google maps. (Esse site da crítica parece ser interessante. O slogan é “live like an insider”)

Se você for a esse cinema, deixe para comer no Katz's Delicatessen, que fica na mesma rua. A francesa do meu albergue tinha me recomendado, mas eu não fui com medo de ser meio caro. Parece que é um restaurante histórico, está lá desde 1888. Tem um
site mto legal.
(se vc tem anti pop-up, desbloqueie).
- Atravessar a Brooklin Bridge a pé: demora mais ou menos meia hora, mas vale pela paisagem, pela ponte em si e pelas pessoas que você vai encontrar no caminho. É um jeito legal de se chegar no Brooklin, em vez de ir por baixo da terra. Quando você atravessar de volta para Manhattan, ande pelos portos. A paisagem é incrível.

- Subir num lugar bem alto: Top of the Rock, no Rockefeller Center, ou Empire State Building. Como adquiri certa antipatia pelo Empire State (a fila é de duas horas, vc tem que praticamente se despir para poder entrar e os seguranças foram extremamente mal educados comigo), sou partidária do Top of the Rock. Se vc for no Empire State, eles têm um mapa que mostra lugares famosos que dá para ver lá do alto (não sei se eles dão o mapa ou vc tem que comprar). Parece ser legal, se vc for durante o dia, é claro. Se der, vá no fim da tarde para poder apreciar a vista à noite também, que é linda!

Não fiz e me arrependo

- Ver um musical da Broadway. O guia fala sobre um lugar onde se pode comprar ingressos pela metade do preço. Esse lugar realmente existe! Fica embaixo da marquise de um hotel Marriot, na Broadway. Fiquei um tempão rodando até encontrar. Ele tem um horário certo de abrir, tem que verificar isso.

- Conhecer outros bairros de NY, além de Manhattan e Brooklin.

- Assistir a uma apresentação de música gospel no Harlem.

- Comer em bons restaurantes.

- Ir num museu hype chamado New Museum. Também ficava pertinho do meu albergue. Na rua do antigo CBGB's.

quarta-feira, 25 de fevereiro de 2009

Atrás do trio elétrico


Nunca fui muito fã do carnaval. Gosto do feriado, claro, mas dispensaria a festa. O motivo dessa rejeição é que, no Brasil, as pessoas sofrem uma pressão enorme para se divertir horrores nessa época do ano. Toda a expectativa só traz ansiedade e frustração. Se você vai ficar em casa, é um perdedor sem amigos. Se você vai a uma festa e não sabe sambar, também está na draga.

Quando a tradição do carnaval passou a pesar tanto sobre os brasileiros? Tenho a impressão de que antes o carnaval era um evento mais descompromissado, uma ocasião em que as pessoas não tinham medo de se vestir de maneira ridícula e cantar musiquinhas alegres e despretensiosas. Não existe um jeito certo de se dançar uma marchinha. Mas tem, sim, jeito certo de se dançar axé, por exemplo.

Este ano foi o primeiro em que passei o carnaval, ou parte dele, em São Paulo. Sem grandes planos, estava em casa na sexta-feira quando ouvi o som de marchinhas vindo da rua. Sim, era um carnaval de rua em plena Augusta. As faixas que vão no sentido centro estavam interditadas para deixar passar um trio elétrico, uma bateria, uma comissão de frente de mulatas e um bando de pessoas dos mais diversos tipos.

Jovens, velhos, crianças, famílias inteiras, engravatados e até pré-adolescentes emos conviviam nessa massa heterogênea que seguia atrás do trio elétrico. Já dizia Caetano, “só não vai quem já morreu”. O engraçado era que o ritmo da batera não tinha nada a ver com o ritmo das marchinhas do carro de som.

Os moradores mais antigos saíram nas janelas e foram para a beira da calçada ver o que estava acontecendo. As casas de show típicas da região também entraram no clima: tinha até um rei momo na frente de uma delas. A noite foi divertida, afinal

quarta-feira, 4 de fevereiro de 2009

Rumo à cidade das pedras


São Thomé das Letras é uma cidadezinha de 6.880 habitantes que fica no sul de Minas. Lá as ruas são de pedra e as casas também. Há rumores de que uma gruta a 5 km do município leva os turistas mais obstinados até Machu Picchu. Não é incomum ouvir relatos de moradores que já viram óvnis e até já entraram em contato com os seres extra-terrestres (seria a proximidade de Varginha mera coincidência?).

Esses causos fazem com que a cidade faça parte de uma espécie de roteiro místico. São Thomé também tem a fama de receber grupos de jovens cuja intenção única é se drogar no meio das pedras e ver discos voadores que não estão lá necessariamente.

Mas o que a cidade tem de melhor é a natureza. Cachoeiras e grutas e mais cachoeiras e montanhas... Apesar de ter se tornado um destino relativamente comum para turistas, São Thomé ainda não comercializou suas belezas naturais, ou pelo menos não o fez com profissionalismo suficiente para tirar toda a espontaneidade do lugar. É claro que perto de cada cachoeira tem uma barraquinha que serve bebidas e quitutes mineiros aos visitantes. Mas elas acabam se integrando à paisagem local, cercadas por cachorros pidões que se espalham pela cidade inteira e imploram por um pedaço do seu pastel de queijo branco.

(Se São Thomé ficasse na Flórida, a cidade inteira seria transformada num parque. Aplicariam as normas de acessibilidade a todos os pontos turísticos e ninguém correria mais risco de escorregar no barranco ao tentar chegar numa cachoeira. As grutas receberiam iluminação artificial e seriam alargadas nos trechos mais difíceis.)

O centro da cidade também é charmoso. Cheio de lojinhas que vendem o artesanato local e restaurantes que prometem comida típica mineira. Não existem regras de trânsito bem estabelecidas e você pode estacionar em qualquer lugar (mesmo!). As pedras não permitem que ninguém ande a mais de 40 km/h, então os riscos de acidentes são baixos.

Minha viagem para a Cidade das Estrelas, ou Cidade Mística, ou ainda, Cidade das Pedras só durou um fim de semana. Fiquei hospedada numa pousada cujas únicas hóspedes éramos eu e minhas duas amigas. Fomos recebidas às 23h de sexta-feira por um gatinho branco com um olho de cada cor e um senhor sonolento, que nos apresentou os aposentos e explicou que o portão não tinha nenhuma tranca. Poderíamos chegar a hora que quiséssemos. Ele nos deu duas chaves: uma da porta da frente da pousada e outra do nosso quarto.

O sacrifício das mais de cinco horas de estrada valeria a pena, ainda que fosse só pelo café da manhã delicioso que o casal da pousada nos serviu. Ao lado da mesa do café, em cima de uma almofada azul, reinava absoluta a gata cinzenta chamada Paulina - o nome é o mesmo da personagem do primeiro conto de um livro do Bioy Casares que acabei de começar a ler. Seu namorado, o gatinho-David-Bowie, também nos visitou mais algumas vezes ao longo do fim de semana.

segunda-feira, 2 de fevereiro de 2009

Sinopse de 2008


Comecei o ano de 2008 na Flórida, do lado de fora de um show do B52’s. Em janeiro e fevereiro, tive a nobre experiência de participar da linha de montagem do Big Mac. Em março, vaguei sozinha pelas ruas de Manhattan. Em abril, passei por um ritual conhecido como formatura antes, porém, de conseguir de fato o diploma por motivos que são muito complexos para uma sinopse. Em maio, procurei um estágio e fiz um projeto de trabalho de conclusão de curso. Em junho, consegui um estágio.

Os seis meses seguintes foram uma mistura um pouco desorganizada de trabalho, estudo, noites mal dormidas, aulas de francês, tarefas adiadas, aulas de body combat, correria, ansiedade, aulas de pilates e alguns momentos divertidos também. Tudo culminou com a apresentação do meu trabalho de conclusão de curso no dia nove de dezembro, quando finalmente me formei de verdade.

Que comece 2009.

quinta-feira, 16 de outubro de 2008

Lista de possíveis temas para posts do mês passado


Setembro passou voando, já estamos na metade de outubro e eu abandonei um pouco este blog. Entre fazer estágio e pesquisar para meu trabalho de conclusão de curso, sobrou pouco tempo e energia para outras coisas. Mas não deixei de ter várias idéias de assuntos sobre os quais eu poderia escrever. Para não desperdiçá-las, vou publicar uma lista dos possíveis temas para post do mês passado:

- Pessoas famosas que achei ter visto ao longo da minha vida: motivado por eu ter achado que vi o Maurício de Souza no Espaço Unibanco. Tenho vários exemplos. Já achei que vi o Paulo Autran também no Espaço Unibanco, o Maluf saindo da catraca do metrô Consolação, o Fábio Assunção sentado na escada de uma concessionária nos Jardins.

- O estranho efeito de uma tarde de chuva seguida por uma noite fresca de céu estrelado na população de São Paulo: o que aconteceu foi que as pessoas ficaram eufóricas e saíram de casa falando sozinhas, cantando músicas esquisitas e andando de bicicleta de um jeito perigoso na Paulista.

- Meu dia com a Polícia Federal: vocês não imaginam o quanto eles foram gentis e cativantes enquanto colhiam documentos suspeitos do lugar onde faço estágio (e não estou sendo irônica).

- A última sessão com minha psicóloga: talvez eu sinta falta do casal de velhinhos que eu sempre via pela janela no caminho para o consultório. Eles sempre liam o jornal àquela hora da manhã, um em cada sofá, um de frente para o outro. Não sei se vou vê-los novamente. Talvez quando eu for buscar meu dicionário russo-português que ficou com a psico (é uma longa história).).


Espero conseguir voltar a postar regularmente aqui, mesmo estando na reta final para entrega do trabalho de conclusão na faculdade. Isso me apavora um pouco, mas tento agir naturalmente.


Sonhos: Dave McKean fez uma capa de Sendman especialmente para o meu sonho de ontem à noite. Ela mostrava duas ilustrações diferentes se você olhasse a revista na vertical e na horizontal.

terça-feira, 9 de setembro de 2008

"Gosta de teatro?"


Todos os dias sou assediada na rua por pessoas pedindo doações para ONGs ambientais, querendo vender poesias ou ingressos para teatro, exigindo minha atenção para apresentar projetos sociais e cobrando “uma colaboração, uma ajuda, uma quantia simbólica.”

O problema é a abordagem extremamente invasiva e até hostil que algumas dessas pessoas usam para chamar a atenção dos transeuntes e fazer com que eles se sintam culpados e mesquinhos caso resolvam não “contribuir”.

“Você gosta de teatro?”. O desavisado responde ingenuamente que sim, que gosta de teatro. É o suficiente para que o homem que fez a pergunta tome 15 minutos do tempo do transeunte para descrever todas as inúmeras vantagens da assinatura de um plano mensal que dá direito ao ingresso de todas as peças de teatro do mundo. Não adianta alegar falta de dinheiro ou falta de tempo de ir ao teatro. Não se esqueça de que ele já tinha dito que gostava de teatro, tsc tsc tsc.

Não há meio de sair com dignidade dessa situação. Ou o sujeito compra o plano que está sendo oferecido e sai com cara de idiota porque sabe que não vai conseguir fazer ele valer a pena a não ser que largue o emprego para ver uma média de três peças por dia, ou o sujeito recusa a oferta e o Você-gosta-de-teatro? faz ele se sentir um lixo aculturado egoísta.

Tem um rapaz que está freqüentemente no meu caminho quando volto do trabalho, às vezes com o rosto pintado de palhaço, que apresenta uns guias culturais que ele propõe “dar” para as pessoas em troca da famigerada “contribuição”, não sem antes explicar todos os motivos pelos quais se deve ter dó dele. Ele sempre me aborda com “Olá, menina linda!” e, quando digo que não posso contribuir, resmunga impropérios em voz baixa.

Ah, e tem também o “Você gosta de poesia?”. Quando me mudei para São Paulo, um deles me deu uma folha sulfite com um poema impresso. Eu agradeci a gentileza e continuei andando com o papel na mão – juro que não entendi que ele também estava atrás de uma contribuição. Quando ele me chamou de volta e me informou sobre suas intenções, devolvi o papel e me desculpei por não ter nenhum trocado.

A gente ainda tem que se desculpar e se justificar por não ter dinheiro sobrando. Se essas pessoas precisam ganhar dinheiro, por que não vendem alguma coisa de que as pessoas realmente precisam? Por que não montam uma banca de café-da-manhã? As que eu encontro no meu caminho sempre estão lotadas sem que o responsável por ela precise apelar para a piedade das pessoas que passam na rua.

Esses apeladores já têm mentalidade capitalista quando pedem dinheiro em troca de qualquer coisa que ofereçam. Então por que não levar a lógica do capitalismo até o fim e oferecer um produto para o qual haja demanda?

É claro que isso não se aplica às ONGs e projetos sociais. Esses são chatos pela insistência e por questionar sua falta de dinheiro como se fosse um crime quando você não colabora.

sábado, 6 de setembro de 2008

Aula de francês


Na minha segunda aula de francês do semestre, cheguei superatrasada. Já tinham grupos formados que deveriam discutir alguns temas propostos pela professora. Sentei com o grupo que tinha ficado com o tema “a televisão deixa as pessoas burras”, ou algo assim. Como todos pareciam concordar com a afirmação, eu me propus a defender a televisão. Achei que assim estaria cumprindo meu papel de única estudante de jornalismo do grupo.

Não estava conseguindo raciocinar direito depois de passar os últimos 40 minutos dentro de um ônibus lotado que peguei depois de oito horas de trabalho na assessoria de imprensa de uma universidade cujo reitor tinha acabado de renunciar no dia anterior por causa de denúncias de gastos ilícitos no cartão corporativo.

Mas, vamos lá, vamos defender o potencial sócio-educativo da televisão, vamos defender que pode existir um jornalismo de qualidade na televisão brasileira, vamos provar que a televisão, apesar dos seus defeitos, pode ser um instrumento que unifica a nação e que isso é uma coisa boa.

E quando tudo o que eu falava era recebido com ceticismo pelo grupo, o estudante do primeiro ano de história começa a descrever a única televisão que presta no mundo, que é a da Suíça, onde a “população escolhe a programação a que quer assistir”. Muito democrático. E o melhor de tudo é que tem tudo a ver com a realidade brasileira. Vamos sugerir para o Sílvio Santos.

Então eu me pego defendendo que a televisão é uma fonte de entretenimento válida para muita gente. As novelas, por exemplo: não é porque somos universitários esnobes e inteligentes demais para acompanhar a novela que vamos negar que ela traz à tona assuntos de importância social sobre os quais algumas pessoas não parariam para refletir de outra forma.

Eu, que nem vejo TV direito, comecei a me exaltar em sua defesa enquanto o resto do grupo insistia em ignorar sua relevância para o povão. E o estudante de psicologia assistia a tudo em silêncio com uma expressão de triunfo esquisita no rosto, como quem nomeia mentalmente os complexos dos outros. Da próxima vez, faço grupo com os meninos da Poli.

O tema jornalismo, pelo jeito, vai ser recorrente durante o semestre do francês e em todos esses mini-debates vão esperar que eu tenha alguma coisa a mais para falar só porque faço jornalismo.
Por fim, quando a aula estava um saco e todas as minhas articulações doíam mais do que o normal (porque tinha feito aula de body combat no dia anterior), um morcego entrou e saiu da sala de aula duas vezes e aquilo foi a única coisa engraçada que aconteceu naquelas duas horas e meia.

domingo, 31 de agosto de 2008

Shuffle

Tenho o péssimo hábito de ouvir sempre as mesmas músicas. Das mais de mil tenho armazenadas no meu computador, devo ouvir com freqüência no máximo umas cem. Não posso definir esse comportamento de outra forma que não como pura preguiça de ouvir coisas novas. Aí enjôo de tudo e passo um tempo no silêncio. Às vezes faz bem.

Agora decidi que vou variar mais a minha playlist. O primeiro passo foi zerar meu mp3 player, enchê-lo com novas músicas e usar o modo shuffle. Engraçado, não sinto muita falta dos cds. Eles são caros, ocupam espaço e sempre estão em caixinhas trocadas. Além do mais, você pode baixá-los inteiros da internet, ver as letras e tudo mais.

Atualmente tenho no meu mp3: Aimee Mann (o último cd @#%&*! Smilers), Keren Ann, Charlotte Gainsbourg, Lilly Allen, Radiohead, The Cardigans, Vive la Fête (acho que baixei junto umas músicas folclóricas francesas reunidas num disco chamado Vive la Fête), a trilha sonora de Juno e de Before Sunset / Before Sunrise.

Não, eu não tenho um i-pod de 80 gigas e nem sei o que faria com tanto espaço. Nem incluindo toda a discografia das principais bandas do movimento punk islandês dos anos 70. Aliás uma vez li um livro do Fábio Massari que falava sobre uma viagem que ele fez para a Islândia unicamente para investigar a música do país. Estranho ler coisas tão específicas sobre músicas que nunca escutei. Não consegui baixar mais de duas músicas de bandas citadas no livro. Alguns nomes não apareciam nem no google (ok, devo estar exagerando).

É como o protagonista de Em busca do tempo perdido, que amava o teatro e dedicava todas as conversas com os colegas à discussão de qual seriam os melhores atores da época. Ele tinha na ponta da língua os nomes dos cinco melhores atores em sua opinião de quem nunca tinha ido a uma peça de teatro:

Naquela época eu tinha o amor do teatro, amor platônico, pois meus pais ainda não me haviam deixado ir, e imaginava de modo tão pouco exato os prazeres que lá se experimentavam que não estava longe de crer que cada espectador olhava, como por um estereoscópio, um cenário que era unicamente para ele,embora igual aos outros mil que se ofereciam, uma cada qual, ao resto dos espectadores.

Mas, voltando à música, fica a questão: o que ouvir? Tenho sempre uma ansiedade por conhecer todas essas bandas novas de quem os críticos de música pop falam. Mas não dá pra escutar tudo e muitas delas fazem exatamente o que as outras estão fazendo. Acho que estou sempre em busca de uma música que me faça chegar em outro lugar, que não sirva somente como fonte de distração enquanto limpo a casa ou abro o e-mail (embora esse tipo de música também seja importante), mas que demande atenção exclusiva e que confira certa grandeza àquele momento. Ultimamente, tem sido difícil achar essa qualidade nas músicas que surgem. Ou talvez eu esteja pouco receptiva a elas no momento.


* Este post foi escrito ao som de: Aimee Mann – 31 Today

sexta-feira, 22 de agosto de 2008

Subtítulos


Depois de falar mal das traduções de nomes de filmes, me sinto no dever de chamar a atenção das pessoas para os subtítulos dos filmes – sejam eles da versão original ou exclusivos da versão brasileira.

Um deles me trouxe problemas na última vez que fui alugar um filme. Com a intenção de alugar Hannibal, aluguei Hannibal – a origem do mal. Não foi minha culpa, o subtítulo estava escrito em letras minúsculas e eu só fui perceber o equívoco quando o filme tinha terminado. Ele está, sem medo de errar, entre os dez piores filmes que eu já vi em toda a minha vida. Vale a pena assistir só para dar valor aos outros filmes.

Tenho que reconhecer que às vezes escolhem um subtítulo estiloso, que dá até um charme, tipo Alien – O oitavo passageiro. Mas outros são de doer. Geralmente tentam explicar ou mostrar alguma coisa a mais sobre o filme, mas, na maioria das vezes, eles acabam sendo óbvios demais ou não combinam em nada com a proposta.

Pulp Fiction – Tempo de violência. Pulp Fiction era o título perfeito! Aí acrescentaram Tempo de violência, que é sério demais para um filme que não se leva a sério; chega a ser um pouco moralista.

2046 – Os segredos do amor. Vocês já viram esse filme? Se eu fosse responsável pelo lançamento no Brasil, não me arriscaria a acrescentar nada ao título, simplesmente porque não entendi a história direito. Esse subtítulo pode levar algum romântico desavisado ao cinema. Pensando bem, talvez seja exatamente essa a intenção.

Eurotrip – Passaporte para a confusão. Parece nome de filme da sessão da tarde
, mas essa é uma das melhores comédias teen que eu já vi. O hit Scotty doesn’t know virou um clássico.

Spellbound – Quando fala o coração. Pensando bem, 80% dos filmes poderiam ter esse subtítulo. Titanic – Quando fala o coração, O Guarda-costas – Quando fala o coração, Star Wars – Quando fala o coração, Rocky Balboa – Quando fala o coração... Mas não se deixe enganar: Spellbound é um filme do Hitchcock de 1945 que, apesar de não ser muito comentado, é um dos meus preferidos. Ele tem uma seqüência de sonho idealizada por ninguém menos que Salvador Dali.

Alguns subtítulos bregas entram em perfeita harmonia com o filme. É o caso de Ghost – Do outro lado da vida e Moulin Rouge – Amor em vermelho. Portanto, não tenho nada a dizer a respeito deles.

Porcos e diamantes são dois substantivos bem improváveis de se usar na mesma frase, mas até que ficou legal como subtítulo de Snatch – Porcos e diamantes. Outros exemplos de subtítulos desnecessários: Trainspotting – Sem limites, Seven – Os sete crimes capitais e Closer – Perto demais.

Ainda sobre traduções
Philip Roth, escritor estadunidense, declarou em entrevista para a Folha de S.Paulo ser admirador de Machado de Assis e, principalmente, de Memórias Póstumas de Brás Cubas que foi lançado lá como Epitaph of a small winner (ou seja, “epitáfio para um pequeno vencedor”). Sobre a tradução do título, ele declara: “Eu não sei de onde vem isso, mas é idiota, deve ser um nome de puro marketing”. Só para lembrar que existem traduções ruins em todo lugar.

quarta-feira, 20 de agosto de 2008

3x4


É horrível, mas, de vez em quando, todo mundo precisa tirar fotos 3x4. E elas ficam cada vez piores... Na minha modesta opinião, o surgimento da fotografia digital permitiu que pessoas sem a mínima qualificação oferecessem serviços desse tipo, fotografando em estabelecimentos que não tem nem mesmo uma iluminação adequada.

Mas não tem problema. Agora, o photoshop resolve tudo. Hoje fui tirar as temidas 3x4 e, ao ver o resultado no computador, perguntei (brincando!) se o rapaz que me atendeu não poderia apagar as minhas espinhas. Ao que ele respondeu – “Pois não” – e começou a fazer o serviço sujo no photoshop.

Não sabia que esse procedimento era assim tão corriqueiro. Se até a minha reles 3x4 recebeu esse tratamento, imagine as barbaridades que eles fazem nas revistas! De alguma maneira, sinto que as minhas fotos 3x4 nunca mais serão as mesmas. Ou será que esse processo é reversível?

* Na foto, uma amostra da minha coleção de fotos 3x4



quarta-feira, 13 de agosto de 2008

Lynch vem a São Paulo


Semana passada o David Lynch esteve em São Paulo para promover o lançamento de seu livro sobre a importância da meditação em sua vida. Falando assim, ele fica parecendo mais um oportunista que escreve um livro de auto-ajuda qualquer só para ganhar dinheiro em cima de pessoas inseguras. Mas, apesar de não ter lido o livro, acho que não é o caso: é o David Lynch.

Fiquei muito decepcionada quando descobri que não poderia conhecê-lo pessoalmente, já que ele esteve na Livraria Cultura bem no meio da tarde, horário em que estava trabalhando. Mas resolvi fazer uma homenagem mental a ele, recapitulando todos os seus filmes a que já assisti. E, para a minha surpresa, só assisti a três deles: Veludo azul, Cidade dos sonhos e Twin Peaks – Os últimos dias de Laura Palmer, nesta ordem exatamente.

Os dois primeiros me marcaram bastante, acho que é por isso que tinha a impressão de conhecer toda a filmografia de David Lynch. Cidade dos sonhos eu vi na faculdade, na disciplina de Lógica (ironicamente). Não entendi nada da história a princípio... Mesmo assim, o filme me prendeu do começo ao fim. É um daqueles filmes em que você não tem idéia do que vem em seguida e que, quando termina, você fica perplexo por alguns minutos vendo os créditos subirem sem saber muito bem o que fazer. E, dias depois, você ainda se pega pensando nele, tentando decifrar o que significou aquilo tudo.

Veludo azul não é menos intrigante. Numa das primeiras cenas, o protagonista encontra uma orelha humana no chão de um terreno baldio por onde passa para cortar caminho. A partir daí ele se envolve numa investigação que vai levá-lo a presenciar situações bizarras e inimagináveis.

Devo aproveitar o assunto David Lynch para falar sobre um assunto que sempre me incomodou bastante: traduções de nomes de filmes. Observe os nomes, em português, de dois grandes filmes do diretor: Cidade dos sonhos e Império dos sonhos (os originais são, respectivamente, Mulholand Dr. e Inland Empire). Aposto que o David não ficou sabendo dessa calamidade. No caso de Cidade dos sonhos, o “sonho” do título adianta ao expectador um aspecto do filme que deveria ser conhecido apenas no decorrer da história, ou seja, o próprio título é um spoiler.

Semana passada, assisti a Medos privados em lugares públicos, cujo título no original em francês é Coeurs. Quem são essas pessoas que tem o direito de usar toda a criatividade para traduzir esses nomes sem a mínima consideração pelo título original nem pelo enredo do filme?

Mais um caso emblemático. O filme Asas do desejo, do Wim Wenders, no original é Der Himmel über Berlin (que significa “o céu sobre Berlim”). Depois, Wim Wender fez um filme chamado Lisbon Story, que foi traduzido como – adivinhem! – O céu de Lisboa, acho que pra compensar o outro céu que eles não tinham mencionado.

E eu poderia continuar citando títulos mal traduzidos, exemplos não faltam... Deixo aqui meu pequeno protesto.

quarta-feira, 6 de agosto de 2008

Monsieur Proust


Ontem recomecei a ler No caminho de Swann, o primeiro volume de Em busca do tempo perdido. Eu tinha lido uma página há algumas semanas e, na minha cabeça, confundi esse trecho com o começo de um outro livro que li na Livraria Cultura sobre a vida de Marcel Proust, escrito pela governanta que o acompanhou durante sua vida inteira.

Quando comecei a ler de novo, a história que eu li era diferente daquela que eu esperava retomar. Mas não decepcionou de maneira alguma. Acho até que a minha hesitação em ler o livro se devia à lembrança de um Proust angustiado tentando terminar um texto no prazo, que foi o que eu li no outro.

No caminho de Swann começa com a descrição de um estado intermediário entre o sono e a consciência que acomete o narrador toda vez que ele acorda no meio da noite e não sabe dizer em que quarto está dormindo, entre todos os quartos onde ele já dormiu ao longo da vida.

Influência do livro ou não, acordei no meio da noite e tive meus cinco segundos de desorientação no qual fiquei imaginando, como o personagem, os móveis em volta da minha cama deslizarem assumindo a posição que eles tiveram nos quartos que já conheci.

Em outra ocasião, já tive uma experiência em que fui influenciada por uma história em quadrinhos que lia antes de dormir. Na história, o personagem principal passa a sonhar com o mundo imaginário formado por seus próprios brinquedos que ele criou na infância e abandonou quando deixou de ser criança.

Esse universo abandonado durante tantos anos passou a ser palco de uma guerra horripilante entre os brinquedos. E é essa situação que ele presencia em seus sonhos e que começa a interferir em sua vida real. Em determinado ponto da história, ele não sabe mais quando está sonhando ou quando está acordado. Parece bobo, mas é perturbador.

Depois de começar a ler esse livro, acordei logo depois de cair no sono e olhei tudo ao meu redor com muita desconfiança, achando que eu própria era o personagem que tem o sono e a vida atormentados pelos brinquedos que abandonou.

Voltando ao caminho de Swann, quando terminar de ler, escrevo minhas impressões sobre ele.

sexta-feira, 1 de agosto de 2008

Coloque o livro de volta na prateleira


No último post mencionei o Belle & Sebastian, que é uma das minhas bandas preferidas. Por que gosto de B&S? Porque consigo me identificar absurdamente com as letras das músicas? Porque elas fazem com que eu não me sinta tão mal por me sentir de determinada forma? Por causa das melodias bonitinhas que fazem uma estranha harmonia com as letras melancólicas? Porque a voz do Stuart Murdoch remete a uma pureza que a maioria das pessoas já perdeu?

Por todos esses motivos, talvez. Mas me lembrei do Belle & Sebastian hoje porque ganhei de aniversário um livro em que vários artistas interpretam músicas da banda no formato de histórias em quadrinhos. Put the book back on the shelf é o nome da música que inspira o título do livro.

Algumas letras são reproduzidas integralmente, outras histórias não mencionam nenhum verso, apenas o enredo e os personagens das músicas. O livro é lindo, mas esse formato – cada música é uma história – impede o que poderia ser uma grande narrativa envolvendo personagens recorrentes nas letras da banda.

Lisa, por exemplo. A letra de She’s losing it não fala muito sobre ela, mas sobre Chelsea, a garota com quem ela tem, possivelmente, uma experiência homossexual: Who needs boys when there’s Lisa around?. Já em Like Dylan in the movies, ela parece ter superado aquela fase: Lisa’s kissing men like a long walk home. Em The model, Lisa tenta fechar os olhos para o fato de ela ter sido uma menina má e encontra alguém que faz a mesma coisa:


Cause Lisa learned a lot from putting on a blindfold
When she knew she had been bad
She met another blind kid at a fancy dress
It was the best sex she ever had

Finalmente, em Beautiful, Lisa é uma garota consumida de maneira quase irreversível pelo tédio. Mas ninguém tem idéia do que está acontecendo na vida dela, ninguém sabe que ela tem problemas porque ela é linda e parece uma rainha – They let Lisa go blind, she’s looking like a queen but if you knew what´s going on in her life...

O que terá acontecido com Lisa? Gostaria de ler a história dela. Outros personagens recorrentes são Anthony e Judy, mas conto a história deles em outro post.

Em tempo: Belle & Sebastian não é uma dupla composta por pessoas chamadas Belle e Sebastian (como eu mesma achava no começo).

segunda-feira, 28 de julho de 2008

Little Nemo


Acabei não contando como, de fato, escolhi um nome para o blog. Confesso que não fiz isso sozinha, títulos nunca foram o meu forte... Depois de um longo e cansativo trabalho de imersão no tema, cheguei a algumas opções de nomes (todos, basicamente, alusões a nomes de filmes ou de músicas) entre elas:
  • Disk Mari para matar

  • If you're feeling Mari (Esse é muito bom! Inspirado na música If you're feeling sinister, do B&S)

  • White collar girl

  • Fake plastic Mari

  • Muffing

  • … e Little Mari in Slumberland

Little Nemo in Slumberland é uma tira de quadrinhos que foi publicada nos EUA entre 1905 e 1913. Winsor McCay criou um personagem, o pequeno Nemo, cujas aventuras oníricas eram publicadas semanalmente no New York Herald, a princípio, e em outros jornais do grupo de William Hearst num segundo momento.

Nos sonhos, o objetivo de Nemo era sempre o mesmo: chegar a Slumberland para brincar com a princesa, filha do rei Morpheus. Mas ele sempre acaba as histórias acordando assustado em seu próprio quarto. Ouvi falar sobre ele pela primeira vez numa aula de editoração de história em quadrinhos que fiz na ECA.

De novo um nome para meu blog que tem alguma coisa a ver com sonhos. Talvez isso prove que ele não pretende ser nada jornalístico, ou talvez não signifique muita coisa...


No trabalho
A acústica da sala onde estou trabalhando é bem peculiar. De vez em quando a gente escuta umas coisas muito estranhas como se elas estivessem acontecendo aqui dentro. Sabe quando você não identifica se as pessoas estão conversando animadamente ou se estão brigando de verdade? Todo esse agito na sala que tem a despretensiosa plaquinha de "Auditoria Interna".


A foto foi tirada no parque Island of Adventures do Universal Studios, Orlando-FL

segunda-feira, 21 de julho de 2008

Como nomear um blog


Quando resolvi fazer um blog para contar minhas experiências de viagem, quis arranjar um nome realmente legal para ele.

Esta não é minha primeira incursão nesse ramo. Já tive um blog chamado Prelúdios e Noturnos que, infelizmente, abandonei por falta de tempo ou inspiração. Prelúdios e Noturnos é o título da primeira série do Sandman – história em quadrinhos do Neil Gaiman (aliás, ele esteve na FLIP este ano). Não tem uma explicação exatamente lógica para eu ter posto esse nome no meu blog, mas ficou perfeito para o efeito que queria causar.

Desta vez, no entanto, estava vazia de idéias. Então resolvi mergulhar no meu passado para ver se encontrava alguma coisa de interessante que me servisse de inspiração. A solução foi abrir a gaveta de chaves que ficara trancada durante anos no meu guarda-roupa.

Eu tinha o costume de guardar a chave numa abertura minúscula embaixo da própria gaveta. Mas, uma vez, joguei com força demais e ela foi mais longe do que as minhas mãos podiam alcançar. E assim fui privada do acesso aos meus próprios segredos mais íntimos.

Com o arame de um cabide desmontado, consegui puxar a chave. A operação toda durou umas duas horas, haja paciência. Na minha gaveta de chave você pode encontrar, entre outros ítens:

- Agendas 1998, 1999, 2000

- Carta de uma amiga chamada Soraya, datada de 18 de dezembro de 2001 (trata-se do ítem mais recente, o que me faz acreditar que o incidente com a chave aconteceu no fim de 2001)

- Bilhete de uma amiga chamada Nathália agradecendo por eu ter emprestado uma apostila de história

- Cartão de aniversário musical de 1999 enviado pela Nathália (ainda toca!)

- Recortes de revistas:
  • Foto da Alanis Morissette tocando guitarra

  • Matéria da Veja sobre o jogo Tomb Raider - “A gata de silício: heroína de jogo para computador vira musa mundial, faz videoclipe e canta com U2” – 25/06/1997

  • Miniposter do Arquivo-X

  • Miniposter do U2

- Revista Sci-fi News de dezembro de 1999 (a capa é sobre Matrix)

- Foto da minha viagem para a Disney, de 1996, na qual eu não apareço

- Panfleto de turismo de New Orleans

- Bilhete não assinado contendo fofocas da vizinhança

- Papeizinhos coloridos

- Um adesivo em formato de coração

- Adesivos em formato de dinossauros

- Um clips de plástico gigante

- Uma latinha linda com um mini-sabonete dentro (ainda tem um perfume suave)

Não entendi o significado do que está desenhado na madeira da gaveta, mas é esse o tipo de coisa que dá um nome legal para um blog. Algo que aparentemente não tem sentido e que no fundo não tem mesmo, mas as pessoas acham que deve ter.

Fiquei tão entretida com a gaveta que criar um nome para o blog ficou para outra hora. É engraçado como a pessoa vai esquecendo as personalidades que já teve e as coisas de que já gostou se não tem nenhum objeto que a faça lembrar.

O desenho da tampa da latinha do sabonete mostra uma mulher com ares de aristocrata sendo servida por uma escrava. Na minha interpretação, ela é a Cleópatra.

El suave jabón Heno de Pravia te facilita este detalle para guardar tus cosas más pequeñas


The Heno de Pravia toilet soap offers you this beautiful printed box to keep your smallest things.


Perfumeria Gal, s. a. Goya 12


Madrid – Made in Spain

quinta-feira, 29 de maio de 2008

Na estrada


Depois que voltei de viagem, tive tempo para ler On the road, do Jack Kerouac. Sempre via esse livro nas bancas e sabia que era a bíblia da geração beat e que talvez fosse interessante ler, em termos de cultura geral. Mas sempre tive uma relutância que só posso explicar da seguinte forma: um livro daquela grossura que conta sobre uma viagem só pode ser enfadonho. Ademais, nunca entendi muito bem o que foi essa geração beat. Lembro que, no primeiro ano de faculdade, uma professora citou esse termo e minha amiga perguntou o que significava. Confesso que não me lembro de como ela explicou, mas ficou na minha mente a imagem de poetas pessimistas e maltrapilhos vestidos de preto, envoltos por uma atmosfera densa composta por acordes de jazz e fumaça de cigarro.

Enfim, eu estava errada quanto ao livro: ele não é nada enfadonho. Mas, ao ler On the road, você corre sério risco de começar a achar a sua vida um tédio total. Os personagens vivem, acima de tudo, com intensidade. Lançam-se em aventuras malucas todos os dias sem se importar com nada nem ninguém. São um pouco egoístas até... Mas como se divertem! Acabam em situações as mais improváveis e conhecem pessoas de tudo quanto é tipo. Não se preocupam com o futuro e não se importam de não fazer absolutamente nada do que a sociedade considera como “util” ou “construtivo”. Que inveja, como podem fazer tudo isso e ainda sair impunes?

É verdade que Kerouac não idealiza essa vida. Em muitos momentos, seu personagem, Sal Paradise, é acometido por tédios e tristezas como acontece com qualquer outro mortal que caminha pela vida nos trilhos da normalidade:

“Fui à casa da namorada de Eddie recuperar minha camisa de flanela xadrez, aquela de Shelton, Nebraska. Ela estava lá, toda abotoada, toda a imensa tristeza de uma camisa.”

“Tão chato assim. Foi uma noite melancólica. Eu me sentia como que num sonho desprezível, cercado por irmãos e irmãs, todos estranhos.”

“Ela se virou, entediada. Ficamos deitados de costas, olhando para o forro e refletindo sobre o que Deus deveria estar pensando quando fez a vida ser tão triste assim.”

Considerando que Sal Paradise é Jack Kerouac, também não é certo dizer que ele saiu incólume da sua longa viagem de loucuras. Eduardo Bueno escreve no prefácio do livro que Karouac “morreu em 1969, depois de anos sentado no sofá vendo programas de auditório na TV da casa de sua mãe (com quem morou a vida inteira), barrigudo, alcoólatra e reacionário, afastado de seus companheiros da geração beat, odiando cada cabeludo americano e se perguntando o que, afinal, havia de errado com On the road”.

Será que cada um recebe ao nascer uma cota de intensidade que deve ser usada ao longo da vida inteira e alguns escolhem gastar tudo de uma vez e outros preferem guardar um pouco pro final? Será que uma juventude completamente hedonista e irresponsável tem necessariamente que acabar recebendo essa espécie de punição, como aconteceu com Kerouac?

Na cadeia
Falando em punição: como é que a Amy Winehouse consegue a façanha de ser presa tantas vezes em tão pouco tempo? Tudo bem, ela usa drogas. Mas o Keith Richards também, e você não ouve falar que ele foi preso. Aliás, taí um que saiu impune de uma vida de excessos.

quarta-feira, 14 de maio de 2008

Passageiros da classe sub-turística


Estive incluída nessa categoria de passageiros numa viagem de Orlando a Fort Lauderdale em março deste ano. Mas antes, um preâmbulo: nos EUA existe uma única empresa de ônibus que atua por todo o país, a Greyhound. Os veículos em si não são muito diferentes daqueles que costumo usar aqui no Brasil no meu trajeto São Paulo – Ourinhos: meio apertados, meio desconfortáveis, não muito limpos, mas fazer o quê? O grande diferencial dos Greyhounds são seus passageiros.

Bem atrás de nós (estávamos eu e dois amigos brasileiros – a Carla e o Leandro), sentaram-se dois casais estranhíssimos. Era difícil decidir se eles pareciam ter acabado de sair de uma penitenciária ou de um sanatório. Uma das mulheres tinha marcas de cortes nos braços que eram sistemáticas demais para serem conseqüência de um acidente. Seus olhos vidrados denunciavam que ela mesma tinha se cortado. A outra mulher era quase um homenzinho e seus companheiros eram velhos gordos e usavam chapéus. Todos falavam alto, davam risadas exageradas e pareciam personagens de algum filme trash, moradores de trailers de algum semi-deserto dos EUA e criminosos em potencial. É sério: nunca vi pessoas tão feias em toda a minha vida.

Do meu lado estava uma velhinha canadense muito simpática. Logo que me sentei ao seu lado, ela contou que estava indo a Fort Lauderdale para visitar sua irmã, que, no dia seguinte, faria 90 anos. Ela me contou exatamente a mesma história depois que acordou de um cochilo de meia hora. Fiquei calculando quantas vezes eu teria que fingir surpresa ao ouvir as mesmas coisas ao longo do percurso de cinco horas até Fort Lauderdale. Mas durante o resto da viagem ela pareceu bem lúcida e manteve uma conversa coerente comigo e com meus amigos.

Ela, afinal, tinha toda a razão de se confundir um pouco: estava viajando de ônibus há dois dias, desde Toronto, Canadá. Fiquei imaginando ao lado de quantas pessoas ela já havia se sentado desde então e para quantas pessoas ela já tinha contado suas histórias tristes: ela costumava vir para a Flórida com o marido todos os anos durante o inverno. Mas agora já fazia 15 anos que não vinha: da última vez, o marido foi dormir uma noite na casa de veraneio e não acordou mais. Também contou da filha, de 60 anos, que trabalha atendendo os telefonemas do 911, o serviço de emergência dos EUA. Finalmente, manifestou sua apreensão com relação à irmã: não sabia se ela ainda dirigia bem o suficiente para ir buscá-la na rodoviária (com 90 anos, imaginei que não).

Chegando à Fort Lauderdale, não tive a oportunidade de conhecer a nonagenária, que confundiu a data e achou que a irmã chegaria no dia seguinte. Nossa amiga teve que tomar um táxi. Quanto a nós, ficamos esperando a tia da Carla (na verdade, tia da mãe dela), que ela mesmo nunca tinha visto. A gente ficava olhando despretenciosamente para cada carro que estacionava, tentando identificar traços brasileiros nas senhoras que dirigiam. Finalmente fomos apanhados e nos sentimos em casa no percurso até Boca Raton, passando pela beira da praia e por condomínios luxuosos.

*Foto: eu, Leandro e Carla na rodoviária de Fort Lauderdale. Essa quarta pessoa ao fundo é um dos passageiros do ônibus

sexta-feira, 2 de maio de 2008

"Dia mágico"


Essa expressão, cunhada por um amigo logo no primeiro ano de faculdade, aplica-se aos dias que começam muito bem, quando você está rodeado por seus melhores amigos conversando e rindo, e, de repente, depois de algum descuido qualquer, você se vê sentado no ponto de ônibus sozinho numa noite fria, escura e chuvosa. Pensamos até em escrever uma tese de mestrado sobre o tema, já que o “dia mágico” parecia ser um acontecimento recorrente na ECA. O título seria algo como “O dia mágico e a pós-modernidade”, ou “O dia mágico e a transubjetividade da comunicação”. Acabamos não levando o projeto adiante, mas os dias mágicos continuam se repetindo em nossas vidas.

O último de que me lembro aconteceu quando fui com alguns amigos conhecer Daytona Beach. Foi num dos meus últimos dias na Flórida. Fazia sol, era um dia de praia perfeito. Num dos carros fomos eu, a Roberta (minha amiga brasileira) e dois amigos russos que conhecemos no hotel, o Anton e o Valério. Anton era o mais engraçado e, talvez, o mais normal dos russos. Valério era o mais... hm... peculiar: excessivamente grande e branco, muito parecido com o que eu imagino ser um Neanderthal. Toda vez que se apresentava, enfatizava a última vogal de seu nome: ValériÔ (em russo, o “o” átono é pronunciado como “a”, portanto, a verdadeira pronúncia de seu nome é ValériA, mas ele deve ter sido bastante hostilizado nas primeiras vezes que se apresentou desse jeito nos EUA, principalmente por seus colegas da construção civil).

Além de nós, tinha mais um carro de russos, portanto os falantes de português estavam em grande desvantagem na hora de tomar decisões. Em certa altura, paramos no que descobri ser um supermercado e, quando a Roberta me perguntou o que estávamos fazendo lá, respondi com toda a certeza: “eles pararam para comprar bebidas”. Quando eles saíram segurando uma bola de vôlei, foi então que percebi o quanto não estávamos entendendo nada do que eles estavam falando.

Chegamos em Daytona à tarde e, depois da compra da bola de vôlei, fomos direto à praia. O quanto não me surpreendi quando entramos de carro dentro da praia! Os carros simplesmente circulavam livremente pela areia e estacionavam por lá mesmo. Enquanto a praia de Miami era tão imaculada e indiferente à atmosfera urbana e cosmopolita em volta, Daytona Beach era excessivamente contaminada pela “civilização” daquele lugar. Entendi, então, por que diabos os carros que circulavam na cidade tinham rodas tão grandes: para agüentarem rodar sobre as areias fofas da praia.

Nos poucos trechos da praia em que os carros eram proibidos, podia-se ver uma paisagem bem bonita e amena, mas essa atmosfera era logo interrompida por alguma música alta ou alguém berrando num microfone. Não era uma época nada amena: estávamos em pleno spring break. Apesar dos carros e do barulho e do fato de que nossos amigos-motoristas começavam a ficar bêbados, até que nos divertimos bastante na praia.

À noite, combinamos de encontrar o Diego (ou Big D, meu amigo de dois metros), que vinha depois junto com o Fernando. Por algum motivo não muito claro, resolvemos ir ao cinema para passar o tempo até que ele chegasse, pois ele saberia dizer onde aconteceriam as festas. O filme: 10.000 bC, a pior coisa que já vi em muitos e muitos anos.

Finalmente o Diego chegou e estávamos no processo de escolher a balada quando o Fernando foi ameaçado de ser preso por não ter dado licença para uma moto passar, ou algo assim. Diego e Fernando banidos daquela calçada pelo resto da noite, estávamos novamente eu, a Roberta e os russos. A balada foi horrível: música ruim, ambiente péssimo, pessoas estranhas e um touro mecânico bem no meio de tudo isso. Dei graças a Deus quando resolveram ir embora. Reencontramos o Diego, que tinha ficado perambulando sozinho pela praia depois que se perdeu do Fernando, e fomos buscar o carro no estacionamento de um Burguer King.

É claro que o carro não estava mais lá. Então quer dizer que aquela placa de “tow-away zone” de fato merecia alguma atenção? Foi quando aprendi o significado do verbo tow – “your car was towed, sir” – disse a funcionária que estava varrendo o Burguer King. De repente, estávamos eu, Roberta e Diego sentados no chão do estacionamento vazio, esperando virem buscar-nos depois de pegarem o carro não-sei-onde pagando uma multa de 150 dólares. Um carro de polícia apareceu e o policial disse que teria que nos prender se continuássemos sentados ali. Expliquei a situação e ele nos mandou sentar num banco a uns 10 metros, onde fui picada por uma formiga.

No caminho de volta dormi um pouco, mas aquele maldito som me atormentava o sono. Eles escutavam uma música popular russa que, juro por Deus, tem a mesma melodia da Suíte dos Pescadores, do Dorival Caymmi. Mas, ao contrário do arranjo de Damiano Cozzela, em russo, ela soava muito brega e tinha uma letra melosa e romântica. Anton contou uma vez que os meninos bêbados costumam sair andando abraçados pelas ruas, chorando e cantando essas músicas na madrugada russa. Às vezes, eles fazem a mesma coisa com o hino nacional.

Chegamos ao hotel por volta das 5 da manhã. É claro que, já em Orlando, achamos que fôssemos todos morrer quando o Valéria quase entrou com o seu velho carro a toda velocidade na lateral do veículo de algum cidadão americano inocente que estava mais sóbrio e mais acordado do que ele. Nessas alturas, ninguém mais ousava contrariar o motorista, que já estava gritando com todo mundo só porque tinha acabado de jogar 150 dólares no lixo e passara as últimas duas horas dirigindo enquanto todos os outros dormiam. Estávamos todos com cara de bunda quando finalmente entramos em nossos quartos para dormir depois desse dia mágico ao extremo.